Arquivos Mensais: Janeiro 2011

Aqui pode viver gente.

Era “enfaixar” toda  Alcântara!!
Colocar uma, bem grande, ao lado da Junta de Freguesia.
E, quiçá, uma outra no Hotel Pestana - pura  homenagem aos desabrigados
de hoje e do futuro – próximo!

Aqui pode viver gente!!

 

 

“Capitão” de Abril

Ao Major Vitor Alves                                                                                                              

 Fiz-me soldado em Abril
Não me conheces, pois não?
As honras que me couberam
Nunca mais envelheceram.
Moram na alma, onde estão.
Gritei vivas.  Bebi lágrimas
Na manhã de cravos mil.
Do cano das espingardas
Colhi flores, madrugadas:
Fiz-me soldado de Abril.
Não matei p’la liberdade.
Outros morreram por mim…
Fiz-me soldado de Abril,
Herói com alma em perfil,
Sem estátua nem jardim.
Fiz-me soldado em Abril
Do ano da pura idade.
E fui praça, soldadinho.
Gritei às armas do sonho
Pela  tua liberdade.
Sou o nome de  amanhã
Que em silêncio perfilado
Traz à história um sentido:
Porque eu, desconhecido,
Sou de Abril o teu soldado.

José Francisco Costa, Director do LusoCentro – Bristol Community College , Professor e Escritor Luso-Americano
(editado noutros blogues)

Pensar Alto

Pensar alto
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesim
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor
enquanto as oleiras das aldeias, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo 

Malangatana Valente Ngwenya  
                                                                                      

As mulheres de Cavaco | Daniel Oliveira | (www.expresso.pt) 27 de Dezembro de 2010

o debate com Defensor Moura, Cavaco Silva louvou as mulheres por cuidarem das crianças e tratarem do orçamento doméstico. Quando Cavaco fala é um País antigo que regressa.

No debate com Defensor Moura – em que o actual presidente, sem estar protegido por discursos escritos, demonstrou até onde pode ir a sua arrogância -, coube a Cavaco Silva o minuto final. Dedicou-o às mulheres, que nesta quadra festiva estão em destaque. Não fosse a virgem Maria modelo para todas as senhoras sérias e a família o centro das suas vidas. 

Ao falar às mulheres, Cavaco fez-lhes um elogio. Pela sua participação cívica na vida da comunidade? Não. Pelo papel crescente que vão tendo nas empresas, na Academia, na cultura, na política? Menos ainda. O elogio foi para as mães, esposas e donas de casa. Por cuidarem das crianças e fazerem milagres com o apertado orçamento familiar.

Quando Cavaco Silva fala o tempo anda para trás. Revela-se o líder paternal, que trata, com a serenidade dos homens ponderados, das coisas do Estado. Vigilante, protege-nos dos excessos. Nunca debate, porque o debate poderia dar a ideia de que ele navega nas águas sujas da polémica democrática. Ele é o consenso. Apesar de tudo o que sabemos, representa a honestidade no seu estado mais virginal. E para ser mais honesto do que ele qualquer um teria de nascer duas vezes e, supõe-se, duas vezes escolher Dias Loureiro como seu principal conselheiro político. A cada acusação responde sem resposta, porque ele está acima da crítica. A crítica a Cavaco é, ela própria, uma afronta à Pátria.

Mas o tempo volta para trás não apenas no olhar que tem de si próprio, mas no olhar que tem do País. Nesse País está, no centro de tudo, a família. E no centro da família está a mulher. Não a mulher que tem uma vida profissional relevante e é uma cidadã activa e empenhada. Mas a esposa e a mãe. É ela – quem mais? – que cuida dos filhos e gere as finanças domésticas.

Cavaco Silva não se engana. Esse país modesto e obediente – onde o chefe de família confia no líder que trata das finanças da Nação e na mulher ponderada que trata das finanças da casa – ainda existe. Ao lado de um outro, feito por uma geração que nasceu numa democracia cosmopolita. Onde os cidadãos têm sentido crítico e as mulheres têm vida fora do lar. Onde os homens também cumprem o seu papel nas coisas comezinhas da educação dos filhos e a gestão da economia doméstica também é obrigação sua. Onde os cidadãos não pocuram homens providenciais que os protejam do Mundo. O problema de Cavaco não é viver divorciado do País real. É haver uma parte desse país que lhe escapa.

Cavaco Silva recorda o que fomos: provincianos, medrosos, conservadores, ordeiros. E nós, como todos os povos, carregamos no que somos um pouco do nosso passado. O cavaquismo representa um Portugal que demora a dar-se por vencido. É o último estertor do nosso atraso. E o seu último minuto teve aquele cheiro insuportável a nefetalina. Aos mais velhos, que o reconhecem, dá segurança. Aos mais novos, a quem diz tão pouco, parece tão inofensivo como um avô vindo de outro tempo.

Há quem ache que Cavaco não é de direita. Engana-se. Cavaco é a única direita que realmente existe em Portugal: conservadora, tacanha, provinciana, caridosa e estatista. A outra, liberal, cosmopolita e tão pouco latina, se não se adaptar terá de esperar muito tempo pela sua vez. Passos Coelho, que representa tudo o que Cavaco despreza, irá descobri-lo muito mais cedo do que julga.

Cavaco, porque nos continuas a enganar?


Para esclarecer as dúvidas e os mal-entendidos….

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA DE JORGE CASTRO HENRIQUES NO MERCADO DE ALCÂNTARA

1300 Lx resulta das deambulações fotográficas de um funcionário dos Correios durante o último Verão. Todos os dias saía do emprego de máquina na mão a vaguear pelas ruas, travessas, calçadas e pátios da Ajuda e de Alcântara ou, como ele diria, do código postal 1300. Fotografa espaços, pessoas e promenores que combina e recombina como as contas de umcaleidoscópio.

O Calvário d’Alcântara deseja um bom ano 2011 a todos!

Foto utilizada de Trilhar Lisboa